Outro dia, recebi uma mensagem que me deixou pensando. Um homem me disse que a nossa pauta contra o assédio em Campinas é “vitimismo em grande escala”. Isso me fez ver que, mesmo com o aumento de 200% nos casos de importunação sexual no transporte da cidade, tem gente que ainda não entende a profundidade da nossa luta.
Por que a luta contra o assédio não é vitimismo?
Acredito que falar sobre a violência que as mulheres enfrentam não é vitimismo, é realidade. Nas últimas semanas, durante o Carnaval, nossa campanha alcançou mais de 4 mil pessoas, e centenas de mulheres vieram nos agradecer pessoalmente. Elas se sentiram vistas, protegidas e encorajadas. Isso não é vitimismo, é necessidade.
Como podemos chamar de vitimismo quando um país registra mais de 700 feminicídios só no primeiro semestre do ano? Ou quando mais de 40% dos jovens até 24 anos sofrem com assédio sexual? Esses números, que estão nas notícias e nos estudos, mostram um cenário alarmante, não uma invenção. No transporte público, por exemplo, 97% das mulheres já foram vítimas de assédio, um dado que por si só já deveria nos fazer parar e repensar.
Nossa luta exclui os homens?
É fundamental deixar claro que a nossa luta jamais teve o objetivo de excluir os homens. Pelo contrário. Nós sabemos que homens também podem sofrer com a violência e que meninos de até 13 anos são, infelizmente, parte do grupo das principais vítimas de abuso sexual. Falar sobre a violência contra meninos, inclusive, faz parte da abordagem do nosso projeto Escola Sem Assédio, que busca proteger crianças e adolescentes.
No entanto, reconhecer essa realidade não exclui a violência específica e estrutural que as mulheres sofrem pela vida inteira. Os dados são claros: as mulheres são as principais vítimas em todos os registros sobre violência sexual e doméstica. É uma realidade que precisa ser enfrentada de forma coletiva, mas que exige um olhar atento para quem é mais vulnerável.
E as “falsas denúncias”?
Um argumento que frequentemente usam para tentar deslegitimar a luta contra a violência é o das “falsas denúncias”. Mas a verdade é que não existe nenhuma sustentação que comprove que a maioria das denúncias são falsas. Pelo contrário, muitos estudos e pesquisas apontam que a grande maioria das vítimas nunca denuncia. O medo, a vergonha e a falta de confiança no sistema são barreiras enormes.
Precisamos mudar essa lógica. A luta por uma Campinas mais segura para todos e todas passa por desmistificar esses argumentos e por garantir que as vítimas se sintam seguras para buscar ajuda. Meu trabalho, com o Clube Santo, Escola Sem Assédio e Carnaval Sem Assédio, é justamente construir essa rede de proteção e acolhimento, e eu continuo firme nessa missão.
Em resumo
- A importunação sexual em Campinas teve um aumento de 200% nos casos recentes.
- A luta contra o assédio não é vitimismo, mas uma resposta a dados alarmantes de feminicídios e assédio sexual contra mulheres e jovens.
- O movimento reconhece e inclui a violência contra homens e meninos, mas foca na vulnerabilidade e nos altos índices de violência contra mulheres.
- A tese de “falsas denúncias” não tem sustentação, e a maioria das vítimas de violência sexual e doméstica nunca chega a denunciar.
Perguntas frequentes
O que é importunação sexual?
É o ato de praticar, sem a anuência da vítima, ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro, em local público ou de acesso público.
Quais são os dados de violência contra a mulher em Campinas?
Apesar do aumento de 200% na importunação sexual no transporte, dados específicos para Campinas sobre outros tipos de violência podem ser consultados em relatórios de órgãos públicos e secretarias municipais.
Como posso contribuir para a luta contra a violência de gênero?
Você pode se informar sobre o tema, apoiar iniciativas como o Carnaval Sem Assédio e a Escola Sem Assédio, e denunciar casos de violência. A conscientização e a mobilização coletiva são essenciais.