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Doutrinação na escola? Por que os verdadeiros problemas da educação pública vão muito além de Marx, Mises e Hayek

Existe um discurso que ganhou muita força nos últimos anos, especialmente com o movimento “Escola Sem Partido” e a chamada “direita mais extremada”, que fala que a escola brasileira só ensina Karl Marx, Karl Polanyi e a Escola de Frankfurt, e que esconde pensadores como Hayek e Mises. Eu diria que essa é uma discussão desonesta, um verdadeiro espantalho que nos desvia dos problemas reais da educação pública no nosso país.

O que realmente acontece nas escolas públicas?

Na minha experiência como estudante de escola pública, e não faz tanto tempo assim, eu nunca tive uma aula dedicada a Mises ou a Hayek. Dia após dia, sim, eu tinha contato com a Escola de Frankfurt e com Karl Marx. Mas, para ser bem sincera, muitas vezes eu nem sequer tinha aula de Sociologia, Filosofia ou até mesmo História, que são as disciplinas que mais aprofundam nesses temas. A realidade é que a coisa é muito mais embaixo do que essa polarização ideológica tenta nos fazer crer.

Esse papo de “doutrinação” é um espantalho porque, na maioria das vezes, o que falta mesmo é professor para dar as aulas. A educação pública continua precarizada, e eu vejo isso de perto, porque sou aluna de licenciatura e tenho bastante contato com o dia a dia das escolas. Desde que eu saí do ensino médio, as coisas não mudaram. O problema não é a falta de diversidade de pensadores, mas a falta de estrutura básica.

O que a escola ensina sobre teoria política?

Quando a gente aprende o que é capitalismo e socialismo, o seu ensino médio já está no fim. Para o vestibular, por exemplo, o que se espera é que você conheça as três principais teorias políticas: Socialismo, Liberalismo e Fascismo. Se você sabe o básico sobre elas, parabéns, você tem uma boa base para entrar na faculdade que quiser.

Se o seu interesse é aprofundar em teoria política, o caminho é fazer uma faculdade de Ciências Sociais, Economia ou até mesmo Geografia. A escola tem uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que precisa ser seguida, e ela não estabelece que o único pensamento político a ser ensinado seja o de Marx.

Aliás, se você é um adolescente curioso, como eu fui, e quer ler Hayek ou Mises mesmo sem ter tido aula sobre eles, faça isso! Eu, inclusive, li muita coisa que a escola nunca passou, desde o ensino fundamental, e não tem problema nenhum em buscar esse conhecimento por conta própria.

Quais são os verdadeiros desafios da educação?

Em vez de criar espantalhos sobre doutrinação, precisamos defender a escola pública mostrando a verdade. Precisamos falar sobre o quanto os funcionários e os professores estão sofrendo, sobre a precarização das condições de trabalho e, principalmente, sobre a violência na escola.

Falar sobre violência nas instituições de ensino é um tabu gigantesco, e mesmo assim, eu estou sempre aqui denunciando. É por causa da violência que muitos jovens não conseguem aprender, não conseguem se desenvolver. Esses são os verdadeiros problemas que afetam a vida de milhares de estudantes e educadores. Os “espantalhos” ideológicos são os menores dos nossos desafios.

Em resumo

Perguntas frequentes

A escola pública realmente proíbe a leitura de Hayek ou Mises?
Não, essa ideia é um “espantalho”. Na prática, a questão não é a proibição, mas a falta de tempo, de professores e de estrutura para aprofundar em todos os pensadores e teorias.

O que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) diz sobre o ensino de teorias políticas?
A BNCC estabelece diretrizes curriculares amplas que visam o desenvolvimento integral do estudante, incluindo o conhecimento de diferentes visões de mundo, mas não impõe o ensino de um único pensador ou ideologia.

Quais são os principais problemas da educação pública, na sua visão?
Os problemas mais urgentes são a precarização do ensino, a falta de professores e estrutura, e a violência nas escolas, que muitas vezes é um tabu e impacta diretamente a capacidade de aprendizado dos alunos.