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Rebeca Cristina: como a geografia revela onde a violência contra mulheres aumenta em Campinas

Educação, ciência e política caminham juntas na minha trajetória. Eu não consigo separar o que faço na universidade do que faço como ativista, porque uma coisa alimenta a outra. A pesquisa que desenvolvemos no Instituto de Geociências da UNICAMP é um exemplo concreto disso.

O que a geografia tem a ver com o enfrentamento à violência?

Bastante. A geografia tem esse papel de entender o espaço: em quais regiões de Campinas ocorre mais violência contra mulheres, quais bairros concentram mais casos, como esse mapa muda em diferentes períodos. Quando a gente junta dados espaciais com contexto social, começa a enxergar padrões que políticas públicas podem e devem endereçar.

Foi com essa perspectiva que eu e um grupo de professores e alunos de pós-graduação do Instituto de Geociências da UNICAMP desenvolvemos uma pesquisa sobre a distribuição da violência contra mulheres em Campinas durante o período de isolamento social da Covid-19.

O que a pesquisa revelou sobre a violência em Campinas?

Os dados que encontramos foram reveladores. Antes da pandemia começar, a violência contra mulheres estava diminuindo em Campinas. Isso era resultado de um período com políticas públicas de enfrentamento ativas: a Lei Maria da Penha, programas de proteção e acolhimento que estavam tendo um efeito real, mensurável.

Quando o isolamento social começou, a violência voltou a crescer. E o dado mais alarmante é que, desde o fim da pandemia, esse índice nunca mais parou de subir. A gente tinha conseguido uma contenção. Depois da pandemia, perdemos esse avanço e até hoje não conseguimos retomar o patamar que tínhamos antes.

Isso não é coincidência. O isolamento forçou mulheres a conviver 24 horas com seus agressores, enquanto os serviços de acolhimento ficaram sobrecarregados ou fechados. Mas o fato de a violência continuar crescendo mesmo depois que o isolamento terminou mostra que o problema é estrutural, que vai muito além de um período específico.

Por que unir universidade e ativismo faz diferença?

Porque dados mudam o debate. Quando a gente consegue mostrar geograficamente onde a violência se concentra, qual perfil de bairro tem mais casos e quais regiões ficaram descobertas de políticas de proteção durante a pandemia, fica mais difícil para gestores públicos ignorarem o problema.

Eu acredito que a política pública de qualidade nasce de um diálogo entre quem está na linha de frente, recebendo denúncias e acompanhando casos reais, e quem tem ferramentas de análise científica para mapear o problema em escala. Quando esses dois lados se juntam, a resposta fica mais eficaz.

Em resumo

Perguntas frequentes

Por que a violência contra mulheres aumentou durante a pandemia?
O isolamento social forçou mulheres a permanecer em casa com seus agressores, enquanto os equipamentos de proteção ficaram sobrecarregados ou com funcionamento reduzido, dificultando o acesso a denúncias e acolhimento.

O problema diminuiu depois que a pandemia acabou?
Não. Segundo a pesquisa, desde o fim do isolamento a violência não parou de crescer. Os índices não voltaram ao patamar que estava sendo alcançado antes de 2020.

Como a pesquisa da UNICAMP pode ajudar a melhorar as políticas públicas?
Ao mapear geograficamente onde e quando a violência ocorre, a pesquisa permite direcionar recursos e equipamentos de proteção para as regiões com maior vulnerabilidade, tornando as políticas mais eficazes.