A luta contra a violência de gênero não começa no crime. Ela começa muito antes, na forma como a gente cria os meninos e as meninas.
Por que o feminicídio tem raiz na infância?
Essa é a pergunta que a gente precisa se fazer com mais coragem. A gente hoje vive uma epidemia de feminicídios, e isso é algo que começa na nossa infância. Meninas são ensinadas a serem recatadas, a ficarem em casa. Meninos são ensinados a explorar o mundo, a serem dominantes. Ao mesmo tempo, a violência é pouco inibida como sociedade: a gente normaliza muito, até nas brincadeiras de criança. “Ai, ele bateu porque gosta de você.” “Ai, namoradinho.” Como se ciúme, controle e agressão fossem sinônimos de afeto.
A forma como a gente ensina o que é amor, tanto pras meninas quanto pros meninos, é equivocada. E isso alimenta a epidemia de feminicídios que estamos vivendo hoje. Porque quando esses meninos crescem sem entender o que é respeito, sem nunca terem sido confrontados, sem que a sociedade tenha inibido o comportamento violento deles, eles se sentem cada vez mais seguros para cometer crimes contra as mulheres.
O que acontece quando as mulheres tentam denunciar?
Tem outro lado dessa cultura que precisa ser nomeado: a descredibilização das vítimas. As mulheres que denunciam são colocadas em xeque. “Você estava com quem?”, “Você estava com que roupa?”, “Por que foi pra lá sozinha?” A culpa nunca recai sobre o agressor. Recai sempre sobre quem sofreu.
Esse mecanismo cultural garante que os homens continuem se sentindo seguros para agir. A impunidade não é só processual. Ela começa antes, no silêncio coletivo, na normalização, na deslegitimação de quem denuncia.
Como discutido na Band Mulher, a educação de meninos e meninas ainda reflete padrões que normalizam o abuso e silenciam as vítimas. Não basta punir, embora punir seja sim necessário. É preciso transformar a cultura que ensina que o controle é amor e que a voz da mulher não tem crédito.
O respeito mútuo precisa ser plantado desde a infância. Precisa ser ensinado para que os meninos não pratiquem e para que as meninas não normalizem esses relacionamentos. Aquilo que te incomoda, que te faz sentir com medo ou diminuída, não é amor.
Essa é uma transformação que a gente precisa fazer enquanto sociedade. E ela não começa só nas delegacias ou nos tribunais. Ela começa nas escolas, nas famílias, nas brincadeiras de criança.
Em resumo
- A epidemia de feminicídios tem raiz na educação diferenciada de meninos e meninas desde a infância
- A normalização da violência em brincadeiras e expressões cotidianas alimenta uma cultura que justifica o abuso
- A descredibilização das vítimas quando denunciam é parte estrutural do problema
- A solução exige tanto punição dos agressores quanto mudança cultural profunda sobre o que é amor e respeito
Perguntas frequentes
Por que a violência contra as mulheres começa na infância?
Porque meninos são criados com comportamentos de controle e dominância que raramente são corrigidos, enquanto meninas aprendem a aceitar e calar. Essa educação desigual normaliza o que mais tarde se torna violência.
Como a cultura de descredibilização das vítimas perpetua a violência?
Quando a sociedade coloca em dúvida a palavra da mulher que denuncia, questionando sua roupa, seus relacionamentos ou seus comportamentos, os agressores se sentem protegidos e continuam agindo.
O que pode ser feito para mudar esse cenário?
Ensinar respeito mútuo desde a infância, inibir comportamentos violentos desde pequenos, garantir que as denúncias sejam levadas a sério e punir os agressores de forma efetiva são passos fundamentais.