A ideia de que mulheres não votam em mulheres é um dos argumentos mais repetidos para explicar a sub-representação feminina na política, e também um dos mais superficiais e enganosos.
Por que o argumento “mulher não vota em mulher” não se sustenta?
Nas eleições de 2024, apenas 34% das candidaturas eram femininas. O número de candidaturas masculinas é muito superior ao feminino, o que significa que, antes de qualquer coisa, a eleitora tem muito menos mulheres para escolher. A pergunta que precisa vir antes é: essa eleitora sequer ficou sabendo da existência de uma candidatura feminina?
A chance de uma candidatura feminina não chegar até a eleitora é altíssima. Isso acontece por razões concretas e estruturais: financiamento de campanha menor para mulheres, menos tempo de TV, menos apoio de partido, menos visibilidade nos veículos de comunicação.
Além disso, mulheres que disputam eleições enfrentam processos de violência política de gênero durante as campanhas. Existe ainda a questão da dupla jornada: disputar uma eleição enquanto se cuida dos filhos, da casa, do trabalho. Isso não é biologia, é uma estrutura social que coloca mais obstáculos para as mulheres chegarem ao ponto de ser reconhecidas pelo eleitorado.
Quando olhamos para quem vence eleições no Brasil, de câmaras municipais ao Congresso Nacional, o padrão é sempre o mesmo: homens, brancos, de famílias com dinheiro e nome. Isso não é coincidência. É resultado de um sistema que foi construído para manter exatamente esse perfil no poder.
A quantidade de mulheres eleitas tem crescido nos últimos anos, mas ainda somos muito sub-representadas. O caminho para mudar isso não passa por culpar a eleitora, mas por estruturar as condições para que candidaturas femininas cheguem às pessoas com a mesma força que as masculinas.
O que realmente explica a sub-representação feminina na política?
Financiamento desigual, violência política de gênero, dupla jornada, menor visibilidade e um número muito menor de candidaturas femininas em relação às masculinas. Esses fatores combinados explicam o resultado eleitoral com muito mais precisão do que o suposto desinteresse das eleitoras.
Em resumo
- Em 2024, apenas 34% das candidaturas em eleições brasileiras eram femininas
- Candidaturas femininas recebem menos investimento, visibilidade e apoio institucional
- Mulheres enfrentam violência política de gênero durante as campanhas
- O padrão de quem vence eleições no Brasil reflete uma estrutura que favorece homens brancos de famílias com recursos
Perguntas frequentes
O número de mulheres eleitas tem crescido no Brasil?
Sim. Nos últimos anos, a quantidade de mulheres eleitas para cargos legislativos cresceu, mas o patamar ainda é muito baixo em relação à metade da população que as mulheres representam.
O que é violência política de gênero?
São ações destinadas a impedir, restringir ou anular o direito das mulheres de participar da vida política em condições de igualdade. Pode incluir ameaças, difamação, assédio e sabotagem de campanhas.
O feminismo interseccional explica melhor essa questão?
Sim. O feminismo interseccional considera que raça, classe, território e outros fatores se combinam e criam diferentes graus de dificuldade para mulheres acessarem a representação política.